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Publicado em 13 de novembro de 2012 às 08h33

Tamanho não é Documento “Florestal”

Embora seja óbvio que o carvão vegetal deva ser comercializado por peso e não por volume, haja vista que o que importa é a quantidade de massa e carbono fixo, mas por questões gerenciais e interesses escusos, estranhamente a unidade adotada sempre foi a volumétrica, repleta de falhas, visto que o tamanho da peça do carvão tem efeito negativo direto sobre o procedimento de medição.
Praticamente, problemas generalizados no mercado do carvão por parte dos atores de todos os elos da sua cadeia têm mantido esta irracionalidade dimensional. De um lado, alguns produtores de carvão insistem em burlar o sistema gravimétrico molhando o carvão e, ou, colocando terra para o mesmo ficar mais pesado, por outro, as empresas falham, gerencialmente, no controle da recepção do mesmo.
Apesar de várias tentativas frustradas do segmento de ferro-gusa em implantar o sistema em peso, há indícios de que, dada as circunstancia da crise internacional e do monopólio do minério de ferro, a pesagem do carvão venha, de fato, a emplacar a qualquer momento. Com a recessão global e esta monopolização, há uma tendência de seleção natural das guseiras, vindo a sobreviver as mais eficientes e organizadas.
Com as guseiras trabalhando abaixo da metade de sua capacidade produtiva e totalmente sem poder de barganha, dado que suas planilhas de custo são vigiadas “à lupa” num “fogo cruzado” entre seus fornecedores de minério, de um lado, e compradores de gusa, do outro, a tendência é que as guseiras ineficientes sucumbam ou se vendam.
Com isso, as remanescentes, mais organizadas, terão melhores condições para controlar a qualidade de sua matéria prima, sobretudo do carvão vegetal. Mesmo que a crise seja como nuvem, dificilmente os guseiros aventureiros encontrarão condições para atuarem, tradicionalmente, como “vaga-lumes”, pois a globalização e o monopólio não mais permitem este tipo de empresários que ligam os fornos quando o preço do ferro gusa melhora e os desligam, caso contrário.
Da mesma forma que os guseiros sobreviventes e as siderúrgicas integradas tiveram que se profissionalizarem, agora será a vez dos produtores de carvão serem pressionados a tal e urgente. A tendência é que as siderúrgicas exijam comprometimento de seus fornecedores sobre a qualidade do carvão. Que eles sigam um ritual de cumprimento das especificações técnicas exigido pelas siderúrgicas para que o carvão seja adquirido.
Na prática, esta tendência de organização da cadeia do carvão já vem ocorrendo, na medida em que as siderúrgicas já impedem a entrada de carvão de mata nativa em seus pátios de recebimento. Certamente, em breve elas também rejeitarão carvão vegetal, mesmo que de reflorestamento, mas que no seu processo produtivo não haja comprometimento com as questões trabalhistas, persistindo situações como trabalho escravo, condições desumanas de produção, ocorrência de acidentes de trabalho por mera falta de uso de EPI, entre outras.
Assim, com a profissionalização do segmento do carvão vegetal, as empresas passarão a adotar o sistema de pagamento com base no peso e não em volume, visto que elas terão condições de impor um processo de controle da matéria-prima mais rigoroso. Neste sentido, mudanças radicais poderão ocorrer na tecnologia silvicultural e nas práticas de manejo florestal. Isto também vai desencadear um olhar diferente para as demais finalidades de uso energético da madeira, principalmente para aquelas regiões em que investimentos florestais só são viáveis se destinados para fins energéticos.
Com a valorização gravimétrica do produto florestal e considerando que quanto mais velha a floresta, maior é a densidade da madeira e maior o peso do carvão, tudo leva a crer que mudanças chacoalharão a ciência florestal, tais como as decisões sobre as escolhas das espécies, clones, espaçamento, adubação e idade de corte.
Se o que interessa é peso, por que optar por um clone ou espécie de expressivo crescimento volumétrico, mas de peso “pena”? Até certo limite, pode-se compensar a perda no volume com ganho no peso, optando por clones mais densos, porém mais resistentes a pragas, doenças e ventos. Observações visuais, percebem-se que muitos clones de expressivo crescimento em altura e diâmetro, não resistem a um sopro. Cada vez mais, se depara com reflorestamentos repletos de reboleiras de árvores quebradas.
Além disso, se há escassez de mão-de-obra, sobretudo nas regiões montanhosas intensivas em trabalho, por que adensar o plantio se o seu custo e demanda operacional é maior que num menos adensado? Sabendo que haverá mais tempo e espaço para o crescimento florestal, mais aberto pode ser o espaçamento, optando por clones densos e árvores menos grossas, visto que as grossas, além da dificuldade operacional na colheita e extração, produzem carvões fendilhados e geram muitos finos.
Desta forma, haverá uma tendência de prorrogar a idade da colheita florestal. Corroborando com isto, tem-se a conjectura macroeconômica de queda nas taxas de juros e de inflação. À medida que estas taxas caem, a idade de corte tende a subir e se aproximar do limite máximo de crescimento volumétrico da floresta, que no caso das plantações de eucalipto está entre 6 a 7 anos, isto em termos de volume, pois a curva de crescimento da densidade da madeira continuaria crescente a partir do sétimo ano, mesmo que, talvez, a taxas decrescentes. Sendo assim, provavelmente, o ponto ótimo de corte estaria acima dos sete anos, bem diferente do que se pratica atualmente (5 a 6 anos).
Hipoteticamente, se considerar o preço do carvão a R$500,00 por tonelada e um Incremento Médio Anual (IMA) de 40m3/ha.ano, mesmo que haja uma queda anual de 10% no IMA do sétimo para o nono ano, compensada por um aumento anual de 10% na densidade, o ganho liquido, descontado por uma taxa de juros de 7% a.a, será significativo, neste caso de, aproximadamente, R$2.000/ha.
A aqueles que admiram um pau comprido, saibam que mais importante que grande, porém frágil a qualquer ventarola, é um pau pesado e duro que vale o quanto pesa. Preparem-se para os novos desafios da ciência florestal com a valorização da densidade da madeira. Eis o mistério da fé.

Artigo originalmente publicado dia 29/10/12 na coluna do autor, site Celulose Online

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